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Vergonha

Há quase dez anos, entrei pela primeira vez em Gaza. O bloqueio persistia e, depois de muitas horas de espera, do outro lado fomos recebidos com cravos vermelhos. Foi a primeira vez que me confrontei com vidas fechadas em prisão e suspensas por uma ameaça constante.

Nos últimos anos, as visitas repetiram-se a Gaza, aos territórios ocupados na Cisjordânia e a campos de refugiados no território e em países vizinhos. Foi há cerca de seis anos que encontrei, num campo de refugiados no norte do Líbano, um senhor palestiniano de idade avançada, que todos os dias de manhã colocava no bolso das calças as chaves de casa. Todos os dias desde o dia que abandonou a sua aldeia em 1967. Nesse guardar de chaves, guardava a esperança do regresso. Na altura que o encontrei soube que a casa que deixou já não era território palestino, que o regresso ao lugar de onde partiu era mesmo só uma esperança como modo de vida.

As vidas dos palestinianos são vidas cercadas, perseguidas. São vidas em suspenso. Vidas precárias em consequência de um processo de ocupação mortífero, imoral e incompreensível à luz da dignidade e do direito internacional.

Em todos estes anos de ocupação, raras foram as vezes que se fez justiça a um povo abandonado e esquecido pela comunidade internacional. Foi por isso que, nos últimos anos, senti verdadeiramente satisfação quando o governo português reconheceu o Estado da Palestina. Foi uma justiça tardia, mas merecida. É neste contexto, de mais de quarenta anos de ocupação abusiva e conhecida, que o governo português decide marcar uma reunião, em Lisboa, com Benjamin Netanyahu, um dos rostos mais visíveis e presentes da ocupação dos territórios palestinianos. Não há nenhuma razão diplomática ou de direito internacional que possa justificar esta visita. Tratou-se mesmo de negócio à frente das vidas e passar um pano molhado sobre décadas de ocupação, opressão e apartheid. António Costa nunca poderá dizer que não sabia do que se passa com o povo palestino, e ainda assim decidiu escolher um lado que não é muito diferente do escolhido por Cavaco Silva quando decidiu chamar Nelson Mandela de terrorista, numa altura que já quase todo o mundo sabia que o lado certo era estar com ele. A política externa portuguesa nos últimos anos não tem sido muito famosa. Nem uma palavra ao lado dos mais atacados povos do mundo, sejam palestinos ou indígenas, e todas as vassalagens para Bolsonaro ou Netanyahu.

Um país tem que dar-se ao respeito para ser respeitado. Fazer negócios com Netanyahu é negociar com quem promove o genocídio de todo um povo. Costa sabe bem disso. Mas, se na altura que furámos o bloqueio, os palestinos nos ofereceram cravos vermelhos, com esta visita Costa esqueceu-se do próprio significado do 25 de Abril. A liberdade e a auto-determinação não são valores que se negoceiem ou que se ponham à venda. Costa sabe bem disso, mas preferiu envergonhar-nos.

Publicado no “Diário de Notícias” - 7 de dezembro de 2019